Aos amigos baianos que me questionam sobre a linguagem gaudéria, aí vai o significado de algumas expressões bem usadas no Sul, retiradas do Dicionário do Portoalegrês, de Luis Augusto Fischer.
Abaixo do cu do cachorro - Posição mais que humilhante. Quem foi muito insultado se sente assim, nesse lugar metafórico;
Abichornado - É o cara que está sem graça, ou que perdeu a graça;
Atrolho - Situação resultante de atrolhar-se: confusão, excesso, balbúrdia indesejável. Uma festa muito cheia de gente é um ‘atrolho’.
Bah - Significa tanto aprovação quanto desaprovação. Já se disse que é uma redução de barbaridade, palavra com a qual o resto do brasil nos identifica, em vários sentidos. Muito usado como fala de aprovação enfática a algo feito ou dito: ‘mas bah’ quer dizer ‘tu tens toda razão’, ‘pode crer’, é isso aí’. A expressão ‘bah, tchê’ equivale, nos termos paulistanos, a ‘ôrra, meu’: tem função mais ou menos apenas retórica.
Capaz - Resposta negativa sintética, de alta expressão e de grande uso. Usada, não sei por quê, especialmente por mulheres (acho eu). ‘Tu vai lá?’, responde a moça, entre o espantada com a pergunta e o indignada com a mesma coisa : ‘capaz’. E depois, na fala, não tem nem ponto de exclamação, é ponto final mesmo. Deve ter-se originado de uma pergunta de resposta a uma pergunta; no caso aí de cima, a resposta da moça, por extenso, seria algo como ‘então tu achas que eu seria capaz de ir lá?’
Guisado - Tanto a carne picada ou moída (aquela que na Bahia se chama boi ralado).
Lagartear - Ficar no sol com a intenção de aquecer-se e curtir as delícias do seu calor; Obviamente só é possível lagartear nas meias-estações e no inverno, quando o sol é raro e esta região do planeta fica bem friazinha; Origem óbvia e inspirada na atitude do lagarto, que fica ao sol; No nordeste se fala em ‘esquentar/aquentar o sol’, no mesmo sentido. Falando nisso, em inglês há um verbo, to bask, que significa a mesma coisa, e isso provavelmente porque lá, terra de clima inclemente como o nosso, também faz sentido lagartear, basking.
Tchê - Vocativo geral nesta banda do mundo; associado: ‘tchê de deus’ (ou ‘do céu!’)! Se usa em qualquer parte, a todo momento, meio inutilmente: ‘aí, tchê, eu cheguei e falei pra ela. bah tchê, foi tri’.
Tri - Advérbio de uso universal em porto-alegres. Em geral, quer dizer ‘muito’: um sorvete pode ser ‘tribom’, um jogo pode ser ‘tridisputado’, uma mulher pode ser ‘trigostosa’, etc. Há uma teoria corrente na cidade que atribui a origem do termo à conquista da copa do méxico, em 1970. o Giba Assis bBasil refina a teoria, dizendo que, além desse tricampeonato, houve também um tri estadual do colorado, que a partir da inauguração do Beira-Rio (1969) iniciou mais uma senda de vitórias, conforme reza o hino do timinho, vindo a completar um ciclo que alcançou o octa-campeonato e três campeonatos nacionais, em 75, 76, 79. Mais uma hipótese: em certo momento houve um caso rumoroso de doping futebolístico, não lembro de quem, se gremista ou colorado, que teria tomado um remedio Trimedal, que pelo jeito fazia mais do que curar gripe. No mínimo, a circulação do nome ‘trimedal’ pode ter reforçado o uso do tri.
Trovar - O mesmo que conversar, especialmente conversar fiado. ‘Bah, e o cara ficou me trovando uma hora’, querendo dizer que o tal cara ficou enrolando, jogando conversa fora. Às vezes pode ter significado positivo, quando por exemplo se usa pra dizer que um sujeito, interessado em certa moça, fica ‘trovando’ com ela, neste caso querendo significar que ficou ‘gastanto o melhor do seu latim’ para obter a consecução de seus amorosos fins. Se usa também para reprimir o interlocutor mentiroso dizendo ‘não trova, meu’.